Onde estão as mulheres com mais de 50 anos?
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Onde estão as mulheres com mais de 50 anos?

por Vânia Goy

Interessada em padrões de beleza mais naturais e no movimento que olha pros corpos femininos de forma mais positiva, a geração millennial vem ajudando a desconstruir os padrões estéticos das últimas décadas. Mas como isso afeta as gerações mais velhas? Estilistas, marcas de beleza e a mídia vem mostrando interesse cada vez maior em abrir o diálogo com quem já passou dos 50 anos de idade e não se envergonha de suas mechas prateadas e das marcas do rosto que aparecem com tempo. Acompanhe a pensata da Peclers Paris, agência francesa expert em mapear tendências de comportamento, moda e beleza e parceira do Belezinha aqui no Brasil.

Orgulho e diversidade

Mercado de luxo, marcas jovens e emergentes, produtores de moda em massa: todos passaram a investir em ideias que enaltecem a diversidade de idade, gênero, forma física e cultura. Um estudo conduzido pelo Fashion Spot aponta que tivemos sete vezes mais modelos acima dos 50 anos de idade nas campanhas internacionais de outono-inverno 2017 do que na estação anterior. Ótimos exemplos: a atriz Isabella Rossellini, que estrelou uma das últimas campanha da marca Sies Marjan; Frédérique Sebbag foi foco da Y/Project em várias fotos que celebram a individualidade, enquanto Kirsten Scott Thomas e Ivan, posaram para Valentino.

Lauren Hutton depois de ter desfilado para a italiana Bottega Veneta, foi escolhida para “modelar” para a Calvin Klein Underwear e também estampou uma das últimas capas da Elle brasileira. Na campanha da Calvin Klein, dirigida por Sofia Coppola, a atriz aparece ao lado de Rashida Jones, Maya Hawke, Chase Sui Wonders, Nathalie Love, Laura Harrier e Kirsten Dunst, completando um espectro que abrange dos 18 aos 73 anos de idade.

Outro ótimo exemplo é a campanha inter-geracional da marca austríaca Helmut Lang, hit dos 90’s, que volta cheia de vigor: fotografada pelo nova-iorquino Ethan James Green, reuniu Larry Clark (75), Traci Lords (49) e Mari Copeny (9).

Baseada na Austrália, a marca de lingerie Lonely, já conhecida pelas campanhas que falam de diversidade de corpos, escalou a modelo Mercy Brewer, de 57 anos, para suas fotos. Helen Morris, fundadora da grife, afirma ter a intenção de “desfiar o que vemos na mídia com uma imagem mais autentica da beleza, para que possamos ampliar o vocabulário visual de todos”. E completa: “a realidade é que vamos todos envelhecer e há vários aspectos maravilhosos que vêm com este processo. Infelizmente, na maioria das vezes, a mensagem ao redor do conceito da idade é intervenção, o que é uma resposta muito frustrante para um processo natural e inevitável.”

Beleza em todas as suas formas

O mundo da beleza ainda é majoritariamente dominado por uma imagem de feminilidade jovem, sinônimo de perfeição, mas regras começam a evoluir. Para os nativos digitais, “positividade corporal” e “beleza natural” são temos-chave. Ao postarem fotos sem maquiagem nas mídias sociais, eles transformam as imperfeições em aspectos positivos e auto-aceitação.

Cada vez mais as marcas de skincare e cosméticos surfam nessa onda: basta olhar para a campanha Body Hero, da americana Glossier, ou para o comercial militante Fight For Natural Beauty, da marca LPG, líder mundial em estimulação celular, que abertamente critica os excessos das cirurgias plásticas e da busca pela juventude a qualquer preço.

Sephora também abriu o espaço para versões autênticas e variadas da beleza com a campanha #neverstops, mostrando perfis de cinco mulheres diferentes. “Temos uma audiência muito ativa e engajada, que está constantemente se apoiando, indo muito além dos produtos” diz Alison Stiefel, VP de marketing na rede de lojas de cosméticos. “Com esta campanha, estamos incentivando uma conversa mais profunda com nossos seguidores sobre o que a beleza significa para eles, dando voz a todas as belezas”.

Reescrevendo as regras

No seu último livro e em sua conta de Instagram, a escritora francesa Sophie Fontanel (que já foi entrevistada pelo Belezinha!) fala sobre o processo de aceitação do próprio cabelo branco. É nesse contexto que vemos a tendência prateada crescer exponencialmente nas passarelas e mídias sociais. Hoje no Instagram, mais de um milhão de pessoas utilizaram o hasthag #greyhair e mais de trezentas mil, o #grannyhair. A jornalista americana Anne Kreamer diz que “a afirmação politica mais provocadora que uma mulher pode fazer é deixar seus cabelos naturalmente cinzas”. Esta declaração ecoa o empoderamento individual descrito pela filosofa e psicanalista Cynthia Fleury como a capacidade de ir além de inibições da sociedade, arriscando ser quem se é.

As mensagens enviadas pelas mídias também enfatizam a mudança da mentalidade coletiva: a nova revista de lifestyle “Renaissance”, direcionada para mulheres acima dos 40, busca combater a percepção e os estereótipos da idade. “Tememos o futuro, escondemos os anos e lutamos contra as nossas rugas. Eu queria uma plataforma que mostrasse que este momento de vida – nossa meia-idade – tem oportunidades para crescimentos, descobertas e liberdade par viver a vida que escolhermos”, diz Mikella Lowe, editora da publicação.

Em 2017, a famosa revista de beleza Allure, escolheu a icônica atriz inglesa Helen Mirren como a estrela da capa da sua edição de setembro, a mais importante do ano entre as publicações femininas e de moda. Nessa edição, se posicionava contra o termo “anti-aging”(anti-idade), banindo- o das suas páginas para sempre. “Querendo ou não, com ele estamos reforçando sutilmente a mensagem de que a idade é uma condição que precisamos lutar contra – como os anti-virus, anti-fungus, anti-ansiedade…”, declara a editoria. “Esta edição altamente esperada foi extremamente necessária para a celebração da aceitação da nossa própria pele – com rugas e tudo. Ninguém está sugerindo que abandonemos o retinol, mas sim uma mudança sobre como pensamos e falamos do processo de envelhecimento”.

 

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