Como a pandemia mexeu com o nosso corpo, da cabeça aos pés
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Como a pandemia mexeu com o nosso corpo, da cabeça aos pés

por Manuela Aquino

Depois de mais de um ano e meio de isolamento, que já avança no relaxamento, saúde mental virou manchete não com foco apenas em autocuidado e prevenção: mas com o peso de que precisávamos apagar o fogo, pois nada ia bem. ”Somos seres de hábito e tínhamos a vida sendo construída, a rotina, o que nos fazia ter uma habituação de estarmos no mundo. Isso foi interrompido e o estado de alerta temporário fez efeitos em todo nosso corpo”, explica a psicóloga Daniela de Oliveira. Dois relatórios dão uma ideia do cenário brasileiro quando o assunto são transtornos mentais e emocionais. Em 2017, o Brasil foi apontado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade nas Américas — com equivalente a mais de 18 milhões de pessoas ansiosas. E durante o auge da pandemia, a Fiocruz revelou dados, colhidos com mais seis universidades, que impressionaram: 40% da população adulta tinha frequentemente sentimento de tristeza e mais de 50% sensação frequente de ansiedade e nervosismo.

Da cabeça ao prato
Muitas vezes este estresse constante repercutiu na alimentação — de quem tinha comida na mesa, já que a pandemia e crise econômica ampliaram insegurança alimentar e cerca de 19 milhões de brasileiros estão em situação de fome no Brasil. “Observamos uma piora nas escolhas e hábitos alimentares da população em geral, além do aparecimento ou agravamento de transtornos alimentares, como compulsão alimentar periódica. Devido aos impactos na saúde emocional das pessoas, houve uma busca por conforto no consumo de alimentos e bebidas”, diz Marcella Garcez, médica nutróloga e Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia. O aumento do consumo de álcool também foi observado — uma pesquisa feita pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) apontou que 42% dos entrevistados no Brasil relataram que andavam bebendo mais. O comportamento fez com que algumas grandes marcas fizessem campanhas pelo consumo consciente e drinks não alcoólicos ganhassem mais força nas redes sociais. 

Quando a pele e o cabelo falam
O impacto psicológico foi grande e veio primeiro, mas, com o tempo, o corpo todo foi dando sinais de que nada ia bem. “A mistura de sentimentos como medo, ansiedade, angústia e incerteza gerada pelo período pandêmico, tornou comum os casos como aumento da oleosidade e da acne, dermatites, além de caspa e herpes”, diz a dermatologista Roberta Padovan. Além das questões com a pele, foi detectada queda de cabelo em pessoas que pegaram Covid — um fenômeno conhecido como eflúvio telógeno, que geralmente aparece três meses após o adoecimento. A queda também pode ser sentida por quem não teve Covid, pois pode estar diretamente ligada ao emocional. “A tensão e a tristeza desencadeadas por esses momentos alteram o ciclo sono-vigília e os hábitos em geral, contexto que pode acentuar a queda de cabelo”, fala Roberta. 

Os dias eternos de home office e o uso das máscaras por quem precisou sair para trabalhar trouxe mudanças de comportamento nas rotinas de beleza. Skincare, por exemplo, roubou atenção da maquiagem. “Houve um aumento da demanda dos pacientes em cuidar da pele e as rotina de skincare se popularizaram. Acredito que grande parte disso foi papel dos influenciadores digitais, que disseminaram o cuidado da pele para as classes B e C. Há 10 anos, a receita médica do dermatologista, voltada para prevenção do fotoenvelhecimento, estava restrita a classes mais altas. Atualmente, com a quantidade de produtos no mercado de diferentes preços, esse processo se tornou mais acessível”, diz o dermatologista Daniel Cassiano, professor de Dermatologia do curso de medicina da Universidade São Camilo.

Corpo dolorido
Maior tempo para se olhar no espelho e banho mais demorado passaram a ser, pra muita gente, refúgio em busca de rituais de cuidado e indulgência. A pele recebeu atenção porque estava em destaque nas chamadas de Zoom, só que, em compensação, a coluna e pescoço reclamaram. Muita gente improvisou seu local de trabalho em casa sem estrutura para segurar as horas de trabalho e a postura acabou comprometida.

Para combater o sedentarismo, todo pequeno movimento do dia a dia conta: andar até o ponto de ônibus e caminhar até o restaurante do almoço, por exemplo, faz diferença, segundo o médico ortopedista Marco Antonio Pedroni, professor do curso de medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Ficar em uma mesma posição errada por horas e horas, usar cadeiras não ergonométricas, o laptop baixo demais e a cabeça baixa por causa do celular, trouxe consequências e repercutiu no corpo com dores musculares, tendinite, bursite e encurtamento da musculatura”, explica.

Agora, dentro das regras, e com a vacinação avançada, é a hora de se mover e apostar em atividades que façam bem para sua postura, coluna e tendões, como yoga, pilates, caminhada e natação. Mesmo ainda com restrições, algumas partes do país estão apresentando índices baixos de mortalidade diária, que incentivam a prática de esportes. No caso dos exercícios, vale consultar algum especialista para que a retomada seja feita com adaptação necessária para que o corpo não estranhe a retomada de atividades. O mesmo vale para a mente: a ressocialização também terá seus desafios para muita gente. Vá no seu ritmo e respeite os seus limites!

ILUSTRAÇÃO: Victoria Andreoli

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