Ney Matogrosso: 40 anos de maquiagem
Belezinha

Ney Matogrosso: 40 anos de maquiagem

por Vânia Goy

Altivo, Ney Matogrosso, que vai completar 73 anos em agosto, abriu a porta do seu apartamento carioca para falar da sua relação com a maquiagem. Seu corpo é impressionante. Ágil, flexível e tonificado. A verdade é que isso nem precisa ser dito, já que ele não tem vergonha alguma de se apresentar sem camisa desde que surgiu, na década de 1970, como um dos integrantes do Secos e Molhados.

Ele me contou que morria de vergonha do próprio corpo. Só se libertou disso quando entrou na Aeronáutica e deixou o Mato Grosso (e também um rigoroso pai militar) para morar no Rio de Janeiro. “Fui um menino problemático. Lembro que na primeira vez que fui tomar um daqueles banhos coletivos, pensei: eles vão descobrir o monstro que sou. E, claro, ninguém achou nada. Muito pelo contrário, descobri que pele era uma coisa bonita.”

Depois dessa fase, Ney abraçou o teatro. Conciliava trabalhos formais com ensaios, peças e aulas de canto esporádicas. Quando veio para São Paulo e, por meio de amigos, foi parar nos ensaios do Secos e Molhados.

Ele morava na Rua Santo Antônio, na região do Bexiga, e caminhar pelas ruas do bairro da Liberdade fazia parte da sua rotina. De lá saíram as primeiras referências para a estética que ele consagrou na banda. “Aquela máscara branca eu trouxe do teatro kabuki. Mas era muito mais uma defesa do que uma escolha para chocar. Eu tinha 31 anos na época e não queria me expor. Ouvia aquelas histórias de celebridades sem privacidade. A verdade é que, no fundo, sou tímido e reservado desde sempre.”

Com ou sem timidez, Ney é muso e ícone. E a gente é tão careta que continua achando ele ousado! Justo ele, que se comporta no palco praticamente do mesmo jeito há mais de 30 anos! E sempre vale lembrar que começou a se apresentar quase nu e maquiado no auge da ditadura militar. “A gente fazia tudo conscientemente. Eu via as pessoas chocadas quando eu sentava em um chifre ou lambia o salto do sapato. A gente queria provocar aquela mentalidade machista e conservadora. Lembro que, quanto mais a censura aumentava a faixa etária dos nossos shows, mais roupa eu tirava.”

Mas, mais do que chocar, Ney realmente se diverte com maquiagem. Para Bandido, por exemplo, que marcou o começo da sua carreira-solo, ele combinou olhos esfumados de preto com batom vermelho e uma rosa na lateral do chapéu. “Eu achava que ficava bonito de batom.”

Hoje, ele mesmo realça os olhos com um lápis macio antes de se apresentar. Diz que a expressão fica acentuada e os olhos brilhantes – ideal para se conectar com o público. Seu segredo é fazer a maquiagem horas antes do show, para ela assentar naturalmente no rosto e ganhar o efeito borrado. O medo da exposição desapareceu. “Com o tempo, entendi que as pessoas passaram a me reconhecer na rua e nada acontece a partir disso. Levo uma vida trivial.”

 

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