Detox digital: a sensação “credo, que delícia” de ficar 4 dias sem celular
Refúgio

Detox digital: a sensação “credo, que delícia” de ficar 4 dias sem celular

por Vânia Goy

Topei o desafio de ficar quatro dias em um spa delícia, sem celular. Mais do que o detox físico, a minha ideia era justamente experimentar, ao menos por uns dias, a sensação de ficar totalmente inacessível, longe da internet. Foi desconfortável, mas muito reenergizante. Contei essa experiência na reportagem abaixo, publicada na Marie Claire!

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Meu maior pesadelo: perder o celular. Sinto aquele frio percorrer minha coluna só de pensar. Sou uma heavy user e, em dezembro passado, calculei, com a ajuda do aplicativo Moment, que passo até quatro horas por dia no telefone. Foi por isso que fiquei tão animada quando o Botanique Hotel & Spa, em Campos do Jordão, São Paulo, me convidou para testar um programa de alimentação detox aliado a um verdadeiro rehab digital de três dias.

O protoloco é composto de seis refeições equilibradas por dia (no meu caso, livres de glúten, lactose, açúcar e carne vermelha), tratamentos desintoxicantes no spa e todo o período sem celular

Animada, agendei essa jornada para a segunda semana de janeiro, melhor timing possível, pós-Natal e Réveillon. Mas pontadas de ansiedade apareceram cerca de dois dias antes da partida. E não eram por questões profissionais – me desligo com relativa facilidade do e-mail e dos grupos de WhatsApp. As pessoas ao meu redor achavam impossível ficar esse “tempo todo” sem celular. E comecei a pensar que muitas das coisas que eu queria fazer estavam completamente conectadas com meus devices: ouvir música, ler infinitos textos, revistas e livros digitais, fazer ioga, meditação. Sim, sou do tipo que tem um app para tudo.

Resultado: fiz uma mala com mais livros do que roupas. Ao todo, eram sete. O mat de ioga foi junto. Cheguei sozinha ao Botanique em meio a uma tempestade que durou praticamente toda a minha estadia. Entreguei meu celular para a equipe do hotel e imediatamente fui ao spa agendar todas as atividades pros meus próximos dias.

Neles redescobri o prazer que é fazer nada – mesmo! Passei horas deitada na espreguiçadeira do meu quarto, no sofá, piscina ou banheira, só olhando as montanhas, sem música nem qualquer interrupção digital. Foi reconfortante não precisar ser produtiva o tempo todo. Ao menos para mim, passar um tempão olhando o feed das redes sociais desperta ideias, ansiedades e vontades de comprar coisas, de viajar e, principalmente, me transformam numa verdadeira máquina de catalogar informação o tempo todo.

Meu fluxo de pensamentos é intenso e só para quando medito. Em três dias, essa avalanche de insights não diminuiu, mas ficou menos fragmentada. Na prática, entendi o que os estudos mostram: os níveis de distração e ansiedade que o celular causa são imensos. Se você é do tipo que pega o aparelho apenas para mandar um contato e, quando vê, já está vendo stories do Instagram, acredite: é transformador conseguir fazer um raciocínio com começo, meio e fim.3

De manhã, antes das 8h, praticava ioga e meditação. Tomava meu café no quarto, via um pouco de notícias na TV, lia o jornal impresso ou um dos livros. E pensava há quanto tempo eu não fazia essas coisas sem interrupção. Aproveitei as tardes no spa do hotel com o cardápio que combina banho desintoxicante, esfoliação corporal, sauna, massagem de 80 minutos (imperdível!) e tratamento facial. Às 20h, quando o jantar era servido, eu já sentia sono. E ele chegava mais rápido quando eu começava a ler na cama. Mesmo assim, senti uma insegurança quase infantil à noite. A chuva intensa lá fora e a ausência de um relógio me faziam me sentir desconfortável. Então pedi para dormir com o aparelho na cabeceira da cama. Ele passava a noite repousando no modo avião, e era entregue logo no café da manhã para a equipe do hotel. Inexplicavelmente, me sentia mais segura de ter “todas as minhas coisas e contatos” ao alcance.

Li a autobiografia da americana Kim Gordon, integrante do Sonic Youth, que recheou A Garota da Banda (ed. Fábrica 231), lançado em 2015, com histórias curiosas e emocionantes. No fim, ela diz que “o silêncio das cidades pequenas faz com que você tenha recursos internos”, e é um pouco do que senti nesses dias. Depois de 72 horas offline, tomei algumas resoluções: estabelecer períodos no-tech, especialmente durante filmes, jantares, leituras e antes de dormir. Também retirei o máximo que pude de notificações dos apps. Se tivesse visto que meu WhatsApp acumulava 397 mensagens não lidas teria sido mais difícil achar que nada urgente estava acontecendo. E nada é mais urgente do que estar em paz.

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