Chá para iniciantes em busca da xícara perfeita
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Chá para iniciantes em busca da xícara perfeita

por Vânia Goy

Eloína Telho costuma dizer que se tiver chá, lá ela estará. Especialista no assunto, me contou que tudo começou quando, ainda criança, lia “Alice no País das Maravilhas” e suas xícaras mágicas de chá servidas na companhia do Chapeleiro Maluco. Adolescente, viveu em Oxford, na Inglaterra, entre xícaras de chá preto com leite e, finalmente, adulta, se apaixonou pelo chai numa viagem à Índia. Caminho sem volta! Ela passou a estudar o assunto com profundidade e aqui conta um pouco mais da história do chá, seus saberes e sabores em para iniciantes que, como eu, vivem em busca da xícara perfeita. 

1. É possível determinar quando e onde a prática de tomar chá nasceu e se disseminou?
Existem algumas histórias que remetem à origem do chá. A minha lenda preferida talvez seja a da China, que diz que o Imperador Shennong, considerado o pai da Medicina Tradicional Chinesa, andava pelos campos catalogando plantas. Cansado, sentou-se embaixo de uma árvore e cochilou com sua xícara de água quente na mão. Quando acordou, viu que algumas folhas haviam caído dentro da xícara e que, em contato com a água, liberavam um aroma envolvente. Resolveu experimentar e percebeu que se sentiu desperto e, ao mesmo tempo, calmo e seu estômago transparente se iluminou. Além disso, relaciona-se a disseminação do chá a partir da dinastia Tang (China, 618-906), por meio de uma obra escrita por Lu Yu, “o Clássico do Chá”.

2. Qual é a diferença entre chá e infusão? 

O chá vem das folhas de uma única planta, a Camellia Sinensis, que dá origem a uma família: chá branco, chá verde, chá amarelo, chá oolong/wulong, chá preto e chá escuro. Se você usa outras plantas para preparar a sua bebida, como camomila, hibisco, gengibre, hortelã, tecnicamente o resultado não é considerado como chá, mas infusão. O chá também pode aparecer em blends, misturado a outras plantas, como, por exemplo, chá verde com menta. Mas, para chamarmos de chá, a Camellia Sinensis deve estar presente, só ou acompanhada.

3. As folhas de chá vem de quais países?
As variedades mais conhecidas de Camellia Sinsensis são a Camellia Sinensis Sinensis, chinesa, e a Camellia Sinensis Assamica, indiana.

4. Quais tipos de chá existem?
Os chás, que vêm da Camellia Sinensis, são: branco, amarelo, verde, oolong/wulong, preto e escuro. A diferença se faz pelo processamento das folhas, que envolve secagem, fixação das enzimas e oxidação, em termos gerais.

5. Cada chá tem um tempo de preparo diferente?
Existem diversos métodos de preparo e todos têm a ver, em verdade, com o que o nosso paladar espera daquele chá. Ocidentalmente, toleramos menos o amargor, procuramos mais por sabores doces; então, observar tempo e temperatura indicados para cada família de chá torna a experiência mais agradável aos nossos sentidos. Na China, no entanto, não há essa preocupação; no preparo “gong fu”, a temperatura é sempre alta, de quase fervura mesmo, mas as infusões são rápidas. No Japão, o amargor é característica desejada, mas há um maior cuidado com a quantidade de folhas, água, bem como com a temperatura usada.

6. A água usada interfere no sabor do chá?
A qualidade da água influencia e muito no resultado final do chá. Para uma boa análise sensorial, recomenda-se o uso de água de nascente, cada vez mais difícil de se conseguir, eu sei!Para o dia-a-dia, em lugares que não tenham a influência de salinidade, água filtrada já resolve. Se for se utilizar água mineral, é preciso experimentar, observando sempre o PH – prefiro de neutro para alcalino – e quantidade de resíduos sólidos, que deve ser menor.

7. Que lições você daria para quem deseja começar a se aventurar por esse universo?
Sou consumidora voraz de todo e qualquer produto relacionado à bebida, de cerâmica a cosméticos, cerimônias a literatura. E cursos. Tenho sede de conhecimento. Mas, como primeiro passo, minha sugestão é: tome chá. Prove todo e qualquer sabor que passe pela sua frente, sem preconceito, com mente e coração abertos. E tente fazê-lo de forma consciente, prestando atenção às sensações que ele vai lhe causar, aromas que vai lhe lembrar, sabores que sua memória vai acessar. Gostar do que se tem à xícara é o primeiro passo para querer conhecer mais e mais sobre o assunto.

8. Você tem chás ou infusões favoritas?
Não consigo escolher um chá favorito na vida. Sempre vai depender do meu estado de espírito, do momento, do que o meu corpo quer naquela hora. Quanto a blends, tenho alguns queridinhos, que me levam àquele lugar-conforto: Earl Grey – chá preto com óleo de bergamota – é um super clássico; Masala Chai – Chá preto com especiarias, preparado no leite, à moda indiana – é, para mim, um abraço.

10. Você tem livros favoritos para quem deseja se aprofundar no assunto?
Em língua portuguesa a literatura é mais escassa, infelizmente. Mas ainda assim temos bons livros. Quanto a literatura mais técnica, adoro “O Livro do Chá”, versão de obra estrangeira, de Linda Gaylard, da Ed. Publifolha; é super didático e bem completo. Também gosto bastante do “Viagem ao mundo do chá”, de Ina Gracindo, que conta até parte da história do chá no Brasil. Se a ideia é ter contato com algo mais filosófico, “O Livro do Chá”, de Okakura Kazuko é uma boa pedida. Também recomendo “O Zen na Arte da Cerimônia do Chá”, que traz as lições zen-budistas presentes na cerimônia japonesa do chá. A Escola “El Club del Té” também tem versões legais de obras originais em espanhol, bem técnicas, pra quem já quer se aprofundar, “Manual do Sommelier de Chá” e “Tea Blender”, ambos disponíveis nas lojas Tea Shop do Brasil.

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