Para escrever e olhar pra dentro
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Para escrever e olhar pra dentro

por Vânia Goy

Tenho escrito muito. Não aqui, mas com papel e caneta nas mãos. Escrever pode ser um baita de um remédio e a gente, muitas vezes, subestima esse ritual potente de cuidado. “A escrita é um processo de cura”, me disse Cris Lisbôa, escritora, jornalista e professora de escrita na Go, Writers, sua escola itinerante. “A gente precisa escrever como precisa aprender a meditar. Escrever regularmente ajuda a gente a redescobrir quem a gente é e a entrar em contato com as nossas complexidades.” 

Despertei pro assunto no fim do ano passado, quando notei que algumas pessoas andavam entusiasmadas com as famosas “morning pages”. Julia Cameron, criadora da técnica, é autora do livro “O Caminho do Artista” e expert em técnicas para despertar a criatividade e acabar com os tais “bloqueios criativos”. O fato é que seu livro, sobretudo as chamadas páginas matinais, são úteis não só para esse objetivo. Julia recomenda que, diariamente, a gente escreva três páginas, à mão. Escreva qualquer coisa que venha à mente. Não precisa fazer sentido, ter começo, meio ou fim. Não vale fazer só quando você está inspirada, é preciso fazer todos os dias. Segundo ela, o exercício funciona como uma drenagem mental, com potencial de nos levar “do outro lado do nosso medo, da nossa negatividade, dos nossos humores.”

Dani Arrais, jornalista e co-fundadora da contente.vc, é uma das adeptas. Me contou que começou a escrever as três páginas diárias em dezembro do ano passado e, desde então, foram poucos os dias que não parou para botar os pensamentos no papel. “Escrevo quando estou feliz e quando estou triste. É muito forte o que acontece quando você acorda e escreve essas páginas diárias em fluxos de consciência. Parece mesmo que faço uma higiene mental, me ajuda a ficar mais centrada e dá o tom do dia“, disse. “É também um processo de investigação, que ajuda a reconhecer, por exemplo, emoções, fases de reclamação e pensamentos repetitivos.”

Rafaella Crepaldi, maquiadora, também é adepta da escrita regular como fonte de autoconhecimento. “As páginas diárias me trouxeram muita clareza. Sinto que a minha linha de raciocínio melhorou”, disse. “Colocar os pensamentos no papel faz com que eu organize, assente as minhas ideias e me observe — não de uma forma melancólica, mas feliz, muito terapêutica.”

Pra quem nunca escreveu ou tende a repetir para si mesmo que não tem habilidade pra coisa, Cris diz que o que a gente escreve nesse fluxo serve para gente se alinhar. “É exercício terapêutico de existir e organizar”. E nem precisa seguir o método das três páginas diárias, o importante é incluir esse ritual no dia a dia. Ela sugere aqui três exercícios para começar: 

1. Descreva a paisagem da tua janela pela manhã, de tarde e de noite. Percebe as nuances, as delicadezas, ousa colocar em palavras o invisível.

2. “Cartas para alguém bem perto” é nome de um romance de Fernanda Young. Trago aqui pra te chamar: escreve uma carta pra alguém que ou mora contigo ou mora pertinho. Fala de tempo. De amor. 

3. Quais são os livros que tu gostaria de ler? E se tu combinasse com um grupo de gente amiga e todo mundo lesse o mesmo livro, ao mesmo tempo? Minha recomendação: Marrom e Amarelo, do Paulo Scott.

Me fala se você experimentar alguma dessas técnicas?

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