Respira: o chá e o tempo
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Respira: o chá e o tempo

por Vânia Goy

Eu quis muito gostar de chá. Me lembro quando, durante uma viagem à Buenos Aires, visitei a pequena Tealosophy, loja da Ines Berton, que ficava no Hotel Alvear. Eram míseros metros quadrados de latas recheadas de blends perfumadíssimos e aquele ar de apotecário que ainda não era moda. Fiquei boquiaberta, inebriada com os aromas e voltei pra São Paulo com alguns deles na mala. Mas o fato é que não consegui colocar os sabores frutados, caramelados ou florais das infusões belíssimas que viajaram comigo no dia a dia de São Paulo.

O chá me encontrou sem querer. E ali descobri que o meu terreno eram os verdes, como o primeiro inesquecível, que mudou toda a minha relação com o assunto. Estava em Paris à trabalho, numa manhã apressada. Tinha acordado meio atrasada para um compromisso muito importante, que me deixava ansiosa. Pedi que o café-da-manhã da manhã fosse entregue no quarto e mal pensei na escolha. Pedi um combo de croissant, suco de laranja, frutas e chá verde, porque não tomo café.  

No primeiro gole apressado entendi que o chá verde amargo que eu conhecia não chegava nem perto desse sabor delicado, adstringente, com frescor, vida e delicadeza. Fiquei tão obcecada que pedi ao time do hotel que me falasse qual era o chá e como preparar a xícara perfeita. Entendi que as pequenas variáveis faziam toda a diferença e, na chegada ao Brasil, providenciei colher medidora, termômetro e alguns chá verdes diferentes para eu provar.

Aos poucos, fui caminhando para além dos sabores e passei a valorizar o ritual. Chá é uma escola sobre o tempo, transformação e detalhe. Ainda fico surpresa com a variedade de sabores que uma única planta pode prover. Com os processos artesanais e ancestrais. Ainda gosto de sentir todos os cheiros, de olhos fechados, para ver como eles vão se transformando depois que água chega. Ainda me surpreendo como sou imediatista e preciso aprender que não controlo o tempo que a água leva pra ferver e não vou fazer os minutos da infusão passarem mais rápido. Cinco minutos podem ensinar demais sobre resiliência e o tanto que a gente precisa respeitar o ritmo natural das coisas.

Reuni, nessa primeira edição da revista digital do Belezinha, experts inspiradores e amantes do chá que cruzaram com o meu caminho. Meu desejo era preparar um guia básico para iniciantes no tema, como eu sou, mas também para inspirar instantes de contemplação e quietude que uma boa xícara de chá é capaz de trazer. Que essa seleção de conversas especiais te inspire a experimentar um deles.

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